"Crise e sucessão" - análise política por Lúcia Hippolito

Hoje, para todos os fins práticos, é o primeiro dia do fim do governo federal. E dos governos estaduais.

Em geral, as coisas acontecem assim: no primeiro ano, cheios de energia, os governantes comandam auditorias, falam mal da administração anterior (a tal herança maldita), propõem reformas ambiciosas, dão início a várias obras ao mesmo tempo, tentam consertar as finanças do país (ou do estado).

No segundo ano, organizam os palanques para as eleições municipais, brigam com o Legislativo, continuam a propor novas obras e projetos.

No terceiro ano, é hora de mostrar serviço. Começar a inaugurar as obras, capitalizar os sucessos, efetuar correções de rumo.

Dependendo do resultado das eleições municipais, manter as políticas ou corrigir os erros.

E, principalmente, começar a montar a própria sucessão. Seja para concorrer à reeleição, seja para eleger o sucessor.

No quarto ano, não dá tempo para quase nada. O ano passa voando, e é preciso deixar a casa em ordem para ganhar as eleições.

Por isso o terceiro ano é tão importante. Mesmo para aqueles que já estão em segundo mandato.

Este roteiro serve para tempos de bonança, crescimento interno e externo, calmaria no mercado. Mas vale pouco para tempos de crise, sobretudo uma crise das proporções desta que estamos vivendo.

Não se sabe muita coisa a respeito ainda. Se vem muito forte para o Brasil. Se vai afetar apenas o crédito. Se vai provocar desemprego. Se vai gerar forte desaceleração no crescimento da economia. Em suma, as incógnitas são muitas, os diagnósticos nem sempre concordam, e por isso a terapia também pode ser diferente.

Todo este ambiente de crescimento da incerteza não contribui em nada para a tomada de decisão dos governantes, numa hora em que se começa a montar o cenário para as eleições de 2010.

Não faz o menor sentido, portanto, a afirmação do presidente Lula de que tem gente torcendo para a crise ser forte. E por quê?

Porque tanto no campo do governo quanto no campo da oposição, os principais candidatos à sucessão presidencial têm responsabilidades de governo. Não são franco-atiradores.

Para a ministra Dilma Rousseff, uma crise profunda pode ser fatal para suas pretensões. Ela depende do sucesso do governo Lula, da manutenção do Bolsa-Família, das inaugurações dos projetos do PAC. Tudo isto demanda recurso, arrecadação, crédito.

Para o governador Jacques Wagner, que pode ser uma alternativa à ministra, o quadro não é diferente. Jacques Wagner tem dois anos de mandato pela frente, e depende dos mesmos indicadores. Também depende de recursos, arrecadação e crédito para fazer um bom governo na Bahia, que alavanque suas possibilidades no jogo da sucessão.

Mas na oposição, o quadro é rigorosamente o mesmo. José Serra e Aécio Neves são governadores de estados que podem ser fortemente afetados em caso de aprofundamento da crise. Não têm nada a ganhar com ela.

Ao contrário do que diz o presidente.

Para manter uma candidatura competitiva, tanto Serra quanto Aécio precisam mostrar serviço em seus estados. O fato de Aécio já estar no final do segundo mandato quer dizer pouca coisa. Um desastre nos últimos dois anos pode apagar completamente seus seis anos anteriores.

Por isso mesmo, um aprofundamento da crise econômica no Brasil só interessa a franco-atiradores e a pessoas de má-fé.

Tanto no governo quanto na oposição.

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