Mensalão: expondo as entranhas.
Em impactante reportagem de Capa, a Revista @VEJA divulga declaracoes atribuídas a Marcos Valério, recentemente condenado e apontado como principal "operador" do Mensalao.
A reportagem apresenta foto do publicitário em frente ao colégio de seu filho e aponta que as afirmacoes divulgadas sao de parentes e amigos próximos ao publicitário, que estaria deprimido com as condenacoes e desiludido com o PT e seus comandantes, que lhe ofereceram garantias de impunidade (antes) e de penas mais brandas (depois).
Mas a casa caiu. Marcos Valério já foi condenado por grande parte dos crimes e, provavelmente, também será condenado pelos outros, com perspectiva de pena em regime fechado por longos anos - mesmo se a pena for abrandada - além do impacto moral e familiar sem precedentes.
Com a perspectiva de uma possível absolvicao ou nao cumprimento da pena pelos verdadeiros caciques do Partido, como Delúbio Soares e José Dirceu, além de Lula, que ficou fora da denúncia apresentada pelo MP, Marcos Valério já nao se esforcará muito para ofuscar a verdade.
Em relacao a reportagem da revista, se limitou a dizer que nao concedeu entrevista oficial. E "nao confirmou" as afirmacoes atribuídas a ele.
Tampouco as desmentiu.
Veja nota de Merval Pereira sobre a reportagem:
VALERIO ACUSA LULA
Merval Pereira, O Globo
Às vésperas da
primeira parte em que políticos petistas e outros, de partidos aliados,
serão julgados pelo Supremo Tribunal Federal pela acusação de compra de
votos em troca de apoio político, a revista “Veja” traz este fim de
semana um relato, atribuído ao lobista Marcos Valério, incriminando o
ex-presidente Lula no mensalão.
Já condenado a muitos anos de
prisão, e sendo provável que até o fim do julgamento deva ser condenado a
outros tantos por novos crimes, Valério já tem a certeza de que ficará
na cadeia por longo tempo e estaria revoltado com o abandono a que seus
amigos do PT o relegaram.
Segundo o relato, Valério acusa Lula de
ser o verdadeiro chefe da trama criminosa e dá detalhes de quem viveu
por dentro a intimidade dos palácios presidenciais.
De concreto,
em termos do julgamento, nem essas revelações nem as acusações
anteriores de advogados dos réus têm o condão de incluir o ex-presidente
no rol dos acusados nesta Ação Penal 470. Mas os estragos políticos são
devastadores, e nada impede que uma denúncia seja feita contra Lula
mais adiante.
No próprio julgamento, o advogado Luiz Francisco
Barbosa, que defende Roberto Jefferson, acusou o ex-presidente Lula de
ser o verdadeiro mandante dos crimes. Ele se baseou na tese do “domínio
do fato”, que levou o procurador-geral a acusar o ex-ministro José
Dirceu como o “chefe da quadrilha”.
“Não só sabia como ordenou o
desencadeamento de tudo isso. Aqueles ministros eram apenas executivos
dele”, garantiu o advogado, referindo-se a José Dirceu, Luiz Gushiken e
Anderson Adauto.
Pelo menos um deles, José Dirceu, disse certa vez
que não fazia nada sem o conhecimento de Lula. Para provar sua tese,
Barbosa fez um relato muito semelhante ao do procurador-geral. E acusou
Roberto Gurgel de prevaricação por ter “sentado em cima” de um pedido
formal para incluir Lula entre os réus do mensalão.
Anteriormente,
em setembro de 2011, o advogado Marcelo Leonardo afirmou, nas alegações
finais apresentadas ao STF na defesa de Valério, que faltava alguém no
banco dos réus.
Usando o mesmo raciocínio que a “Veja” atribui a
Marcos Valério, segundo quem “apenas os mequetrefes” estão sendo
condenados, escreveu o advogado na ocasião: “É um raríssimo caso de
versão acusatória de crime em que o operador do intermediário aparece
como a pessoa mais importante da narrativa, ficando mandantes e
beneficiários em segundo plano. (...) Alguns, inclusive, de fora da
imputação, embora mencionados na narrativa, como o próprio presidente
Lula”.
Relatos anteriores davam conta que Marcos Valério,
deprimido, enviara mensagens para seus interlocutores no PT,
principalmente a Paulo Okamoto, ex-tesoureiro do PT e amigo íntimo de
Lula, ameaçando revelar detalhes do envolvimento do ex-presidente no
mensalão.
Okamoto admitiu recentemente ter conversado com Valério,
mas ao contrário de acalmar o publicitário mineiro, as conversas tinham
um motivo mais trivial do que chantagens, embora inverossímil: “Ele
queria me encontrar porque às vezes queria saber como está a política,
preocupado com essas coisas”.
Lembrando que o próprio
procurador-geral da República, Roberto Gurgel, acusou o esquema de ter
sido tramado de dentro do Palácio do Planalto, o advogado de Jefferson
disse que seria uma ofensa a Lula afirmar que ele não sabia de nada.
“Claro
que sua excelência (Gurgel) não pode afirmar que o presidente da
República fosse um pateta, um deficiente, que sob suas barbas estivessem
acontecendo tenebrosas transações e ele não soubesse nada”, concluiu
Luiz Francisco Barbosa.
Nas vezes anteriores em que deixou vazar
ameaças contra seus parceiros petistas, Valério recuou. Diante da
situação concreta de se ver na cadeia, é possível que tenha perdido a
esperança de ser salvo, apesar das promessas que diz ter recebido. Os
petistas garantiram a ele que adiariam o julgamento o quanto pudessem e
que as penas seriam brandas. A realidade tem sido bastante diferente.
Ministros
do Supremo deixaram escapar que, pela tese do “domínio do fato”, se a
cadeia de comando não terminasse no ex-ministro José Dirceu, teria que
subir um patamar e atingir Lula.
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