Guerra no Rio: tropas do Estado ocupam a Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão

Em operação inédita, polícia com auxílio da Marinha expulsa traficantes da Vila Cruzeiro e parte para dominar o Alemão.

Chefe do CV e mais 500 estão no Complexo do Alemão, estima polícia

Operação com policiais e soldados do Exército provocou intensa troca de tiros com traficantes nesta 6ª

26 de novembro de 2010 | 19h


Pedro Dantas e Gabriela Moreira - O Estado de S.Paulo

RIO - Depois que pelo menos 200 traficantes fugiram da Vila Cruzeiro, na véspera, para o Complexo do Alemão, a polícia calcula que pelo menos 500 bandidos e traficantes estejam no morro, ocupado pelo Exército e forças de segurança do Rio. Um deles seria Fabiano Atanásio da Silva, o FB, um dos chefes da facção criminosa Comando Vermelho na região. Na Favela da Grota, os agentes ficaram a menos de cem metros de uma casamata que serviu de abrigo aos traficantes.

Robson Fernandjes/AE

Robson Fernandjes/AE

Traficantes provocam agentes na Favela da Grota

Os criminosos provocaram os policiais aos gritos: "Vou meter bala!", berrou um deles. "É contigo mesmo!", respondeu o agente federal. Os bandidos ainda expunham e apontavam fuzis em direção a um grupo de fotógrafos que registravam as cenas na Avenida Itararé, via que cruza várias comunidades do Alemão, em desafio à investida militar. Quando viam que eram filmados, alguns bandidos debochavam da situação, colocando as armas para o alto e até simulando uma dança.

Com os intensos tiroteios em pelo menos três favelas, algumas famílias deixaram as favelas carregando eletrodomésticos, com medo de confrontos. Após a chegada de 800 homens da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército para o cerco, ouviu-se outro intenso tiroteio, com mais de meia hora de duração. No confronto entre PMs e criminosos, até coronéis pegaram em armas para revidar os tiros.

Na Avenida Paranhos, em Ramos, nos arredores da Grota, Luiza de Moraes, de 61 anos, foi baleada na barriga, dentro de casa. Por conta do embate, a ambulância não conseguiu chegar para socorrer a vítima, que acabou levada num blindado da PM para o Hospital Getúlio Vargas. No início da noite, ela estava sendo operada. O traficante conhecido como Mica, um dos gerentes do tráfico na Vila Cruzeiro, teria sido baleado.

Durante todo o dia, helicópteros da Polícia Civil e Militar sobrevoavam as 18 favelas o Alemão. Houve disparos de criminosos contra as aeronaves. Nos acessos, as revistas causavam constrangimento a moradores que deixavam o complexo com medo de possíveis confrontos. Mulheres e crianças choravam quando eram abordadas.


As equipes, fossem do Exército, fossem policiais, não estavam munidas de computadores para que as fichas criminais dos que passavam pudessem ser checadas. "Se tiver algum bandido desconhecido fugindo, não vamos poder prender. O que queremos fazer é impedir a saída dos líderes e armas", desabafou um oficial da Polícia Militar.

Dentro da favela, os bandidos se comunicavam via rádio e telefone. As conversas eram monitoradas por policiais dentro da base das operações montadas no batalhão próximo ao complexo. Nos diálogos, traficantes planejavam fugas disfarçados em táxis e vans. "Atenção para dois vagabundos num táxi acompanhados de uma mulher e um bebê", disse um PM por volta de meio-dia às equipes localizadas nas saídas do morro.



Cinco civis são baleados no Alemão; 39 morreram desde domingo

Uma criança, duas senhoras, um jornalista que trabalhava na cobertura da operação e um homem foram vítimas; nesta sexta, ao menos 4 suspeitos foram mortos pelos policiais

26 de novembro de 2010 | 20h 19

Estadão.com.br

RIO - Os confrontos no Complexo do Alemão deixaram pelo menos cinco civis baleados, entre eles uma criança, duas senhoras e um jornalista que trabalhava na cobertura da operação.

A criança se chama Giovana Isabela da Penha Vasconcelos, de apenas 3 anos de idade, e estava dentro de casa quando levou um tiro de raspão no braço esquerdo, mas já teve alta. Outro ferido foi o fotógrafo Paulo Whitaker, da agência de notícias Reuters, que levou um tiro no braço esquerdo na altura do ombro no Morro da Grota e foi transferido para o Hospital Pasteur, no Meier. Ele foi ferido por volta das 18h na Rua Itararé, na entrada da Grota. Paulo contou aos médicos que ele mesmo tirou a bala do braço. Segundo o hospital, o ferimento não é grave, mas ele passou a noite internado por estar com pressão alta.

Além deles, duas senhoras - Luiza de Moraes, de 61 anos, e Eliane de Almeida Machado, de 62 anos - foram alvejadas por balas perdidas e continuavam internadas. A primeira foi atingida por estilhaços de tiros no abdômen e a segunda foi baleada na panturrilha esquerda. Um homem ainda não identificado também foi baleado no tórax no Morro da Grota e não havia sido transferido a algum hospital até as 20h.

Balanço. A PM do Rio informou que até o fim desta tarde, ao menos 39 pessoas haviam morrido após a onda de ataques que ocorrem no Estado desde domingo. Este número inclui tanto supostos traficantes quanto inocentes baleados durante as incursões realizadas em várias favelas. O balanço informava ainda que ao menos 197 pessoas haviam sido presas ou detidas e várias armas, drogas e materiais explosivos e inflamáveis também foram apreendidos. Por enquanto, pelo menos 97 veículos foram incendiados em ataques no Estado.

Só nesta sexta-feira, pelo menos quatro suspeitos foram mortos em confrontos com policiais. Uma das mortes ocorreu em São Cristóvão, outro no Morro do Juramento e o terceiro, identificado como "Thiaguinho G3', em Inhaúma.

Segundo o balanço, dois suspeitos foram detidos em Mesquita, onde foram apreendidos uma pistola e um revólver. Em São Cristóvão, oito coquetéis molotov, uma garrafa de gasolina e um revólver 38 foram apreendidos. Um foi preso. Já no Morro do Juramento, uma pistola 380 foi encontrada.

Nesta sexta dez veículos foram incendiados - seis carros, três ônibus e um caminhão.

(Rodrigo Burgarelli, Gabriela Moreira, Ítalo Reis, Solange Spigliatti e Pedro da Rocha)

Perda de espaço motiva ataques do tráfico, dizem analistas

Unidades de Polícia Pacificadora avançam em locais antes dominados por criminosos no Rio de Janeiro

26 de novembro de 2010 | 10h 15

RIO - A progressiva perda de espaços antes dominados pelo tráfico causada pelo avanço das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) é vista por analistas como uma das principais desencadeadoras da onda de ataques no Rio.


Para o sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Gláucio Soares, a instalação de UPPs resultou "numa redução considerável de renda" pelos traficantes, e na perda de um domínio territorial que já somava décadas.

Segundo Soares, uma das origens históricas para o controle do tráfico sobre comunidades carentes remonta aos mandatos do ex-governador Leonel Brizola (1983-1987 e 1991-1994). "A política brizolista de que polícia não sobe morro foi desastrosa, porque deu tempo para esses grupos saírem de suas bocas de fumo e estabelecerem um domínio territorial. As UPPs acabaram com esse domínio", aponta.

Além das UPPs, o sociólogo David Morais, da Universidade Cândido Mendes, diz que o surgimento das milícias - outra forma de poder paralelo nos morros, ligadas a policiais ou ex-policiais corruptos - também contribuiu para encolher ainda mais os espaços de que antes desfrutavam os traficantes. "O monopólio territorial do tráfico começa a cair com o surgimento das UPPs, e paralelamente você tem as milícias, que começam a concorrer nas mesmas atividades. Então os traficantes têm que buscar outros lugares para continuar suas atividades ilícitas", explica.

Morais afirma que descer para o asfalto não é a alternativa automática. "Nas favelas, o crime é muito mais fácil, porque não faltam vias de fuga que viaturas não podem acessar".

Motivação política. O antropólogo Rubem César Fernandes, da ONG Viva Rio, vê motivação política por trás dos ataques, lembrando que estamos num momento de transição entre um mandato político e outro. A situação lembra a virada de 2006 para 2007, quando uma série de ataques - incluindo ônibus queimados e policiais mortos - foi realizada antes da posse do governador Sérgio Cabral.

"Por um lado, as ações parecem ser intervenções para influenciar nessa mudança. O que está diferente, entretanto, é que elas parecem ser mais coordenadas que das outras vezes, e os métodos adotados mudaram. Está havendo uma articulação territorial muito ampla, e as ações são rápidas, sem deixar vítimas", diz Fernandes. "Estão queimando para a fotografia, para provocar uma imagem na opinião pública."

O que também mudou desta vez, aponta Fernandes, é que pela primeira vez há um ânimo na sociedade acompanhando o governo nas reconquistas dos territórios. "Com as UPPs, criou-se um horizonte. E a resposta está vindo mais forte do que os traficantes imaginaram", diz Fernandes, citando a articulação veloz entre o governo do Estado e Marinha para o uso de veículos blindados na operação realizada quinta-feira.

"Acho que o feitiço virou contra o feiticeiro", afirma, torcendo paraque o momento represente "a virada de mais uma página importante na conquista dos territórios".

Entrosamento com a comunidade. Para Gláucio Soares, o entrosamento das polícias pacificadoras com as comunidades prejudicou ainda mais o crime. "Nas favelas liberadas, a população tem mostrado uma grande aprovação. Isso transforma o traficante numa figura indesejada", diz ele.

Exemplo para tal é o aumento de ligações feitas ao Disque Denúncia. "Antes, as pessoas não denunciavam por medo de represália. Agora, aumentou a apreensão de drogas, armas e a prisão de traficantes com base em denúncias", diz Soares.

De acordo com o sociólogo, o que difere este momento de outras escaladas de violência no passado é a relação com as UPPs. Ele ressalta, entretanto, que os eventos ocorridos não são novidade. "É preciso não perder a memória. De 2000 a 2009, 822 ônibus foram queimados e depredados por bandidos no Rio", diz, citando dados da federação de transportes do Estado.

Já David Morais considera que há outro diferencial: a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. "O Rio vai se transformar num foco de atenção em função desses dois grandes eventos, que vão atrair muito investimento e muito turismo, mas qualquer coisinha que acontecer aqui virar um 'oba-oba' para a mídia", diz.


Comentários