PT absolve Sarney no Senado

O FIM DO PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT)

Decisão do Conselho de Ética a favor de Sarney gera crise na bancada do PT.

LULA DETERMINA AOS SENADORES DO PT, VOTAR À FAVOR DO ARQUIVAMENTO DE TODAS AS DENUNCIAS CONTRA SARNEY. ENTRA EM CAMPO, O MAIOR PIZZAIOLO DA "REPÚBLICA"




Publicada em 19/08/2009 às 23h36m
Reuters; Agência Brasil; Agência Senado; Adriana Vasconcelos - O Globo

O senadores Aloizio Mercadante e  Ideli Salvatti  durante reunião do Conselho de Ética. Foto: Roberto Stuckert Filho/ O Globo

BRASÍLIA - No mesmo dia em que a senadora Marina Silva anunciou sua saída do PT , os petistas seguiram a determinação do presidente Lula e ajudaram a enterrar as investigações sobre o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), no Conselho de Ética . A decisão aumentou a divisão dentro da bancada do PT na Casa. O presidente do Senado, que enfrenta uma série de denúncias, é visto pelo Palácio do Planalto como um aliado estratégico no Congresso e na construção da candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência.

Seguindo a orientação do Palácio do Planalto, três senadores petistas votaram contra os recursos da oposição para dar andamento às investigações contra Sarney. O líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), entretanto, criticou a postura dos colegas e reafirmou que seu cargo está à disposição da bancada.

- A minha vontade hoje verdadeira era sair da liderança do PT - destacou Mercadante. - Só não vou contribuir para agravar a crise da bancada... Não reivindico continuar líder, não pleiteio, só não sou uma pessoa de deixar a minha bancada e o meu partido em um momento tão difícil.

" Fico sem mandato, mas não fico no PT. Não estou nervoso nem decepcionado, estou envergonhado, profundamente envergonhado " Flavio Arns

Já o senador Flávio Arns (PT-PR) disse nesta quarta-feira que vai deixar o partido por entender que a legenda abandonou suas bandeiras da ética e da transparência ao se posicionar favorável ao arquivamento das denúncias no Conselho de Ética. Com a saída de Arns, a bancada do PT no Senado sofre a sua segunda baixa. Arns afirmou que vai procurar a Justiça para não perder o mandato. Segundo ele, o PT traiu os seus ideais.

O senador Flávio Arns (PT-PR) - Agência Senado/Arquivo

- Fico sem mandato, mas não fico no PT. Não estou nervoso nem decepcionado, estou envergonhado, profundamente envergonhado - afirmou Arns, acrescentando que ainda não sabe seu destino. - Vou à Justiça para que ela diga claramente que temos que ser fiéis ao partido e o partido tem que ser fiel à sua filosofia, ao seu ideário e aos princípios que fizeram ele existir. E isto não está acontecendo - afirmou.

Mais cedo, durante a sessão do Conselho de Ética, Arns fez duras críticas ao partido. Ele disse que o PT "rasgou a página fundamental de sua constituição que é a ética".

O senador disse que Arthur Virgílio (PSDB-AM), cujo pedido de investigação também foi arquivado no Conselho de Ética, "tem honrado o mandato que o povo lhe confiou". E acrescentou que não poderia dizer o mesmo de seus companheiros de partido que votaram a favor do arquivamento das denúncias contra Sarney. Ele lembrou que esses senadores assinaram um documento pedindo que as denúncias fossem investigadas, mas acabaram por tomar outra posição.

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou, por sua vez, que, se pudesse, votaria a favor das representações e denúncias. O petista não pode votar porque é suplente.

- Apesar da recomendação [pelo arquivamento] feita pelo presidente do meu partido, eu votaria a favor se não fosse suplente - disse Suplicy.

Mercadante irrita senadores no Conselho de Ética

Mercadante recusou-se a ler no Conselho de Ética uma nota do presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), orientando os senadores do partido a reforçar a defesa de Sarney. O gesto irritou os senadores do partido que integram o colegiado, já que todos temem o impacto negativo do posicionamento do partido nas eleições de 2010.

- Seria hipocrisia eu ler uma carta que eu não concordo - argumentou Mercadante em entrevista, lembrando que sua posição era igual à da maioria da bancada.

O líder do PT disse que era favorável à abertura de uma investigação sobre supostas irregularidades cometidas por Sarney na administração do Senado, como a suposta participação do peemedebista na edição de atos secretos. Com a sua recusa, no entanto, a nota do presidente do PT foi lida na sessão do Conselho de Ética pelo senador João Pedro (PT-AM).

Bancada mantém apoio a líder

A entrevista de Mercadante foi concedida após reunião com parte da bancada do PT no Senado, que mantém o apoio à permanência do senador no cargo. Delcídio Amaral (PT-MS) e Ideli Salvatti (PT-SC), líder do governo no Congresso, que votaram junto com João Pedro pela manutenção do arquivamento das denúncias contra Sarney, não participaram do encontro.

" Hoje é o dia em que o PT abraça o Sarney e o Collor e a Marina sai. Triste dia esse, para o PT "

A posição do PT no Conselho de Ética também gerou uma série de protestos da oposição.

- Trata-se de uma dramática confissão da falta de coerência do PT, que deveria ter assumido desde o primeiro momento que iria proteger o presidente do Senado - disparou o presidente nacional do PSDB e titular do Conselho de Ética, senador Sérgio Guerra (PE).

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) atribuiu à interferência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a condução da votação no Conselho de Ética. Em sua avaliação, o colegiado estava humilhado.

- Hoje é o dia em que o PT abraça o Sarney e o Collor e a Marina sai. Triste dia esse, para o PT. Para a biografia do presidente Sarney, esse é o pior dia - disse.


ÍNTERGRA DA CARTA da senadora Marina Silva comunicando sua saída do PT.

Publicada em 19/08/2009 às 18h17m


A senadora Marina Silva comunica oficialmente a sua saída do PT - Ailton de Freitas

RIO - A senadora Marina Silva (sem partido-AC) oficializou nesta quarta-feira a sua saída do PT após 30 anos . Ex-ministra do Meio Ambiente, Marina recebeu há quase duas semanas um convite para se filiar ao PV e se candidatar à presidência da República no ano que vem. Em carta ao presidente do partido, o deputado Ricardo Berzoini (SP), Marina agradece, relembra a sua relação histórica com o partido e diz que a decisão foi muito difícil.

"É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade".

Leia abaixo a íntegra da carta:

"Caro companheiro Ricardo Berzoini,

"Tornou-se pública nas últimas semanas, tendo sido objeto de conversa fraterna entre nós, a reflexão política em que me encontro há algum tempo e que passou a exigir de mim definições, diante do convite do Partido Verde para uma construção programática capaz de apresentar ao Brasil um projeto nacional que expresse os conhecimentos, experiências e propostas voltados para um modelo de desenvolvimento em cujo cerne esteja a sustentabilidade ambiental, social e econômica.

"O que antes era tratado em pequeno círculo de familiares, amigos e companheiros de trajetória política, foi muito ampliado pelo diálogo com lideranças e militantes do Partido dos Trabalhadores, a cujos argumentos e questionamentos me expus com lealdade e atenção. Não foi para mim um processo fácil. Ao contrário, foi intenso, profundamente marcado pela emoção e pela vinda à tona de cada momento significativo de uma trajetória de quase trinta anos, na qual ajudei a construir o sonho de um Brasil democrático, com justiça e inclusão social, com indubitáveis avanços materializados na eleição do Presidente Lula, em 2002.

"Hoje lhe comunico minha decisão de deixar o Partido dos Trabalhadores. É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade. Tenho certeza de que enfrentarei muitas dificuldades, mas a busca do novo, mesmo quando cercada de cuidados para não desconstituir os avanços a duras penas alcançados, nunca é isenta de riscos.

"Tenho a firme convicção de que essa decisão vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida.

"Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro. Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas.

"É evidente que a resistência a essa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas políticas para mantê-las.

"Uma parte das pessoas com quem dialoguei nas últimas semanas perguntou-me por que não continuar fazendo esse embate dentro do PT. E chego à conclusão de que, após 30 anos de luta socioambiental no Brasil - com importantes experiências em curso, que deveriam ganhar escala nacional, provindas de governos locais e estaduais, agências federais, academia, movimentos sociais, empresas, comunidades locais e as organizações não-governamentais - é o momento não mais de continuar fazendo o embate para convencer o partido político do qual fiz parte pro quase trinta anos, mas sim o do encontro com os diferentes setores da sociedade dispostos a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável, a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento para o País. Assim como vem sendo feito pelo próprio Partido dos Trabalhadores, desde sua origem, no que diz respeito à defesa da democracia com participação popular, da justiça social e dos direitos humanos.

"Finalmente, agradeço a forma acolhedora e respeitosa com que me ouviu, estendendo a mesma gratidão a todos os militantes e dirigentes com quem dialoguei nesse período, particularmente a Aloizio Mercadante e a meus companheiros da bancada do Senado, que sempre me acolheram em todos esses momentos. E, de modo muito especial, quero me referir aos companheiros do Acre, de quem não me despedi, porque acredito firmemente que temos uma parceria indestrutível, acima de filiações partidárias. Não fiz nenhum movimento para que outros me acompanhassem na saída do PT, respeitando o espaço de exercício da cidadania política de cada militante. Não estou negando os imprescindíveis frutos das searas já plantadas, estou apenas me dispondo a continuar as semeaduras em outras searas.

"Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos

"Saudações fraternas

Marina Silva"

Comentários

Postagens mais visitadas